Dois clientes a quarenta quilómetros um do outro em Lisboa são uma manhã. Dois clientes a quarenta quilómetros um do outro no Alentejo podem ser um dia, porque a distância entre eles não é o problema. É a distância que o separa de qualquer um dos dois.

É essa toda a diferença, e é ela que decide como o trabalho se vende cá.

A unidade é o dia, não o vídeo

Um criador que fatura à peça nesta região acaba a financiar a viagem com o próprio cachet, todas as vezes. A unidade realista é o dia: chega, trabalha, vai-se embora, e o preço cobre as três coisas.

Os clientes daqui percebem isso melhor do que os das cidades, porque toda a gente no Alentejo organiza a própria vida da mesma maneira. Dizê-lo com simplicidade quase nunca encontra resistência, e elimina a negociação que de outra forma aconteceria no fim.

Rentabilizar uma deslocação

Agrupe, mas não às cegas

Dois clientes na mesma vila no mesmo dia é excelente. Dois clientes a uma hora um do outro é um dia com um buraco lá dentro e um deles a receber a sua atenção cansada.

A regra que resulta é um cliente principal e uma paragem pequena, combinados à partida, com a paragem perto da estrada que já vai fazer.

Filme a região enquanto lá está

O hábito mais rentável para quem trabalha por aqui é juntar material que ainda não é para ninguém: a estrada, os sobreiros, o trigo na época errada, um largo de aldeia às três da tarde.

Todas as marcas de alimentação, vinho e turismo que o contratarem depois vão precisar dessas imagens, e nenhuma vai pagar uma deslocação só para as obter. Custa dez minutos por viagem e torna-se aquilo que o faz competitivo face a um criador que tem de vir de Lisboa.

O que está previstoA versão realistaO que custa
Duas filmagens no mesmo diaMesma vila, ou uma principal e uma paragemUm valor de dia, não dois valores à peça
Uma filmagem numa aldeia a uma horaMeio dia ido antes de chegarFaturar a viagem, ou recusar
Um exterior ao meio-dia no verãoVai sair plano e duroMudar para as duas horas boas
Uma repetição rápida na semana seguinteOutro dia inteiroFazer bem, ou combinar correções à distância
Imagens da região de reservaDez minutos em cada viagemNada, e ganha trabalho mais tarde

A quarta linha é onde o dinheiro desaparece em silêncio. Uma repetição que custa uma hora a um criador de cidade custa-lhe um dia, portanto a disciplina de verificar antes de sair de um local conta aqui mais do que em qualquer outro sítio do país.

Quem encomenda por cá

Os compradores são menos do que numa cidade e mais fiéis, o que muda a forma de construir um ano.

O vinho, a cortiça e a alimentação fazem o grosso

As herdades, as adegas cooperativas e os produtores são a espinha da procura local, e as necessidades deles são sazonais de uma maneira que se consegue antecipar: as vindimas, o engarrafamento, a época das feiras, o período das prendas. Dois desses momentos são datas fixas que se põem num calendário com um ano de antecedência.

Ao lado deles estão operadores turísticos, entidades públicas e por vezes um empregador industrial, que encomendam menos vezes e pagam a horas. Nenhum deles está a olhar para outros cinquenta criadores, e essa é a maior diferença em relação a trabalhar em Lisboa.

O meio-dia não é seu amigo

A planície quase não dá sombra, e o sol do meio do dia é alto, duro e plano. As caras ganham sombras inutilizáveis, a cor esbate-se, e o horizonte que faz a beleza desta paisagem transforma-se numa faixa branca.

Portanto as horas aproveitáveis são mais estreitas do que na cidade, onde uma parede ou um pátio salvam uma tarde. Planeie os exteriores para o início e o fim do dia, guarde o meio para interiores, e diga-o ao cliente na primeira mensagem em vez de pedir desculpa depois.

No verão isto não é uma preferência, é a agenda. Um cliente que espera uma filmagem no exterior às duas da tarde tem de ouvir isso antes do dia, não enquanto está lá.