A costa portuguesa move uma economia a sério. Escolas de surf, hostels, fabricantes de fatos, reparadores de pranchas, cafés que abrem às sete porque é a essa hora que as pessoas saem da água. Todos compram vídeo, e quase todos recebem a mesma coisa.

Recebem ondas. Lindíssimas, filmadas com drone, em contraluz, impossíveis de distinguir das ondas de todas as outras marcas do mesmo troço de costa.

A onda não é o produto

Uma onda pertence ao oceano. Nenhuma marca é dona dela, nenhuma a fez, e essas imagens trocam-se entre dois concorrentes sem que ninguém repare. É a definição de conteúdo que não vende.

Pior, aponta à pessoa errada. O cliente de uma escola de surf não é quem vai bem no plano. O cliente é quem está de pé na areia às oito, com frio, com uma prancha que não sabe transportar, a pensar se não se terá enganado.

O que acontece em terra

Tudo o que uma marca pode mesmo afirmar acontece antes e depois da água, e quase nada é filmado.

O parque de estacionamento às sete

O ritual verdadeiro desta costa é um parque às escuras, um termo, alguém a contorcer-se dentro de um fato ainda húmido de ontem. Não é glamoroso, quem já surfou reconhece-o de imediato, e pertence a um sítio em vez de a um banco de imagens.

O fato ainda molhado

Ninguém vende o segundo dia. Vestir neoprene frio é o momento mais detestado do desporto, e uma marca cujo fato entra mais facilmente tem um argumento que nunca mostra. Filme a luta, depois filme a diferença. É uma demonstração de produto que o público vai mesmo ver.

O material que falha

Um leash que parte, uma mossa reparada com o que não devia, um fecho endurecido pelo sal. São os momentos sobre os quais os clientes perguntam e os que as marcas escondem. Uma sequência de reparação é conteúdo, e faz mais pela credibilidade de um shaper do que qualquer plano do pico.

O que a marca vendeO plano que o provaOnde se filma
Uma escola que sabe lidar com iniciadosUma primeira aula, quedas incluídasCom água pela cintura, da beira
Um fato que aqueceA saída ao fim de duas horas, ainda a falarO parque, não a água
Uma prancha que duraA mesma prancha, reparada, duas épocas depoisUma oficina ou uma garagem
Um hostel pensado para surfistasOnde seca a roupa molhada, a cozinha das seteLá dentro, às horas reais
Uma vila costeira no invernoRuas vazias, ondulação grande, quatro pessoas na águaA marginal, fora de época

A última linha é a que mais rende e a que menos se encomenda. As imagens de verão estão em todo o lado e não vendem nada, porque o verão vende-se sozinho. O inverno é o que separa um negócio costeiro a sério de um sazonal, e é a época que ninguém se dá ao trabalho de filmar.

Não surfar é uma vantagem

É a parte que trava muitos criadores, e está ao contrário.

Quem compra uma aula, uma prancha de espuma ou o primeiro fato é iniciado. Um criador que não sabe surfar é essa pessoa, em câmara, com honestidade. A dificuldade dele é a história, o pequeno progresso dele é a recompensa, e nenhuma das duas se imita quando se surfa desde os nove anos.

Há também um lado prático. Quem está na água segura uma prancha, não uma câmara. Quem fica na areia tem a sequência inteira: a chegada, a explicação, a queda, o riso, a subida de volta. É isso que é usado, e filma-se com os pés secos.

O que o Atlântico faz a uma filmagem

Três coisas são próprias desta costa e cada uma já estragou uma entrega.

O vento destrói o som primeiro

Muito antes de a luz ou o enquadramento darem problema, o vento deixa cada palavra inutilizável. Um microfone de telemóvel com brisa de mar só grava um ronco. Ou grava a fala dentro de um carro, num portal ou atrás de um muro, ou pensa a peça para funcionar sem fala, com o sentido nas legendas.

O sal destrói o material a seguir

A maresia não é água, é corrosiva, e mata conectores e óticas em silêncio ao longo de semanas. Lave tudo com água doce no próprio dia, tenha um pano que nunca toque na areia, e aceite que um saco deixado aberto na praia é um saco cheio de areia para o resto da vida.

A costa está virada a oeste

O sol nasce por trás da terra, portanto o início da manhã aqui é plano e cinzento por muito boas que estejam as ondas. A luz que favorece esta costa chega ao fim do dia, sobre a água. Se uma marca quiser sessões de manhã, a resposta honesta é que o ambiente vai ser frio e azul, o que fica muito bem desde que todos contassem com isso.