Cascais tem duas clientelas que de fora se parecem e que não se comportam da mesma maneira em nada. Uma está de passagem. A outra vive cá, faz compras cá todas as semanas, e muitas vezes não fala português.
Quase todo o conteúdo produzido pelos negócios desta vila aponta ao primeiro grupo, e é por isso que tantos descrevem o mesmo problema todos os janeiros.
Um residente compra cinquenta vezes
A aritmética não é subtil. Um visitante pode gastar bem e vai fazê-lo uma vez. Um residente com cão, carro, ginásio e filhos gasta uma quantia menor todas as semanas durante anos.
O conteúdo dirigido a visitantes constrói-se sobre a descoberta: a vista, o ambiente, a razão para vir. O conteúdo dirigido a residentes constrói-se sobre a comodidade e a confiança: horários, se dá para marcar, se quem lá está fala a língua deles, se aquilo de que precisam existe hoje.
Esses dois vídeos não têm quase nada em comum, e um negócio que só faz o primeiro é invisível para os clientes que lhe teriam feito o ano.
Que língua decide mesmo
Quem decide nem sempre é quem fala
Numa casa de estrangeiros instalados cá, a decisão de compra cabe muitas vezes ao membro do casal que fala menos português, porque é quem faz as pesquisas à noite. É a essa pessoa que o seu conteúdo chega, e é por isso que o conteúdo em inglês converte cá a taxas que surpreendem negócios habituados a pensar o inglês como língua de turista.
Legendas não são o mesmo que falar
Um vídeo em português com legendas em inglês diz que o negócio é português e o tolera. Um vídeo em inglês diz que o negócio o espera. Para um serviço em que alguém tem de explicar um problema, essa diferença decide a quem telefona.
O contrário também é verdade, e é por isso que a resposta não é simplesmente mudar.
O português continua a fazer o trabalho pesado
A clientela portuguesa local é a que mantém esta vila aberta em fevereiro, e um negócio que passa a ser visivelmente só anglófono perde-a devagar e não dá por isso até contar.
A resposta que resulta são as duas, produzidas numa só filmagem, com a mesma pessoa em câmara a dizê-lo duas vezes. Custa dez minutos a mais e é o hábito de produção mais útil deste mercado.
| Quem compra | O que precisa de saber | Em que língua |
|---|---|---|
| Um residente do bairro | Horário, marcação, stock, facilidade | A língua em que pesquisa |
| Um visitante de quatro dias | A vista, a razão, como chegar | Inglês, e mais uma |
| Um cliente português local | As mesmas coisas práticas, mais confiança | Português, sempre |
| Um recém-chegado no primeiro mês | Tudo, com paciência | A língua com que chegou |
| Um proprietário sazonal que volta | O que mudou desde o ano passado | As duas, brevemente |
A última linha é própria desta costa e quase ninguém filma para ela. Quem passa parte do ano cá volta na primavera a querer saber o que fechou, o que abriu e o que mudou de sítio, e dois minutos de atualização em abril são um dos gestos de boa vontade mais baratos ao alcance de qualquer negócio da vila.
O que se vende o ano todo
A armadilha sazonal em Cascais não é o verão ser cheio. É o calendário de conteúdo seguir o verão e depois parar.
O material que resulta nos meses fracos é o menos glamoroso: a oficina que repara, a entrega que continua no inverno, a aula que não para, o serviço mais fácil de marcar quando mais ninguém o quer. Esse conteúdo é barato de fazer, não tem concorrência em janeiro, e chega exatamente ao público que continua cá.
O risco de falar só a estrangeiros
Existe uma versão desta vila em que um negócio deriva para uma clientela inteiramente internacional e residente, e é uma posição frágil.
Essa população mexe-se. Contratos acabam, famílias mudam-se, uma moeda oscila e um grupo desaparece num ano. Um negócio cujo conteúdo e clientela assumiram que eles ficariam não tem uma segunda perna onde se apoiar.
A configuração estável é ser mesmo legível para os dois: português para a base, inglês para a minoria importante que decide em inglês, e a mesma informação prática nas duas. Não é um compromisso, é o que esta vila em concreto é.



