Uma marca pergunta se consegue entregar em inglês. Diz que sim, porque fala inglês. Duas semanas depois o vídeo volta com um pedido de alteração que ninguém sabe explicar, e toda a gente é educada sobre o assunto.
O problema não era o seu inglês. Era que a língua foi tratada como um traço pessoal em vez de como parte daquilo que estava a ser comprado, portanto ninguém combinou como é que aquilo tinha de soar.
Quatro pedidos que parecem o mesmo
Chegam escritos quase da mesma maneira e querem coisas diferentes.
Uma marca portuguesa que vende lá fora
Quer o produto dela percebido num mercado que não é este. O sotaque conta menos do que a clareza, e um sotaque português em inglês é muitas vezes uma vantagem: diz que o produto vem de algum sítio. Pergunte em que país corre a campanha, porque inglês para os Países Baixos e inglês para os Estados Unidos não são o mesmo briefing.
Uma marca estrangeira que produz cá
Quer as imagens de Portugal e a voz de casa dela. Muitas vezes a resposta certa é que o criador filma e outra pessoa fala, e dizê-lo cedo faz parecer competente e não limitado. Continua a ser pago pela filmagem, pela direção e pelos direitos.
Um cliente espanhol
As marcas ibéricas atravessam a fronteira a toda a hora e vão pedir espanhol porque sai mais barato do que contratar duas vezes. Seja honesto quanto ao nível. Um lusófono a fazer espanhol aproximado é detetado de imediato por um público espanhol, e prejudica a marca mais do que uma voz portuguesa assumida com legendas.
Português do Brasil, pedido a um português
Este é aceite com demasiada facilidade. É outra variedade, com outro vocabulário e outro ritmo, e um público brasileiro ouve a diferença na primeira frase. A não ser que a marca queira explicitamente uma voz europeia a dirigir-se ao mercado brasileiro, isto não é uma questão de língua, é casting.
| O pedido | O que quer mesmo | O que verificar antes de aceitar |
|---|---|---|
| Consegue fazer em inglês | Uma voz percebida num mercado estrangeiro | Que país, e quem valida o texto |
| Precisamos de espanhol | Um segundo mercado sem uma segunda filmagem | Se o público é espanhol ou latino-americano |
| Faça para o Brasil | Uma voz brasileira, em geral | Se sabem que é europeu |
| As duas línguas, por favor | Dois ficheiros, não um ficheiro bilingue | Que a segunda versão está orçamentada, não presumida |
A última linha é onde se perde dinheiro. Uma segunda língua é uma segunda entrega, com montagem própria, legendas próprias e ronda de aprovação própria, e fatura-se como tal.
Volte a filmar a segunda versão, nunca a dobre
Se ficarem combinadas duas línguas, faça as duas no próprio dia, com a mesma roupa, a mesma luz, uma a seguir à outra. Dez minutos a mais na filmagem não custam nada.
Gravar uma voz depois por cima da mesma imagem nunca resulta. A boca não bate certo, o ritmo dos gestos pertence à primeira língua, e quem vê regista que alguma coisa está errada sem saber dizer o quê. O único caso em que uma voz separada passa é aquele em que ninguém fala em cena.
Avaliar com honestidade o seu próprio nível
Há um teste e demora trinta segundos. Sem guião nenhum, improvise meio minuto sobre o produto nessa língua, grave-se e ouça.
Se aguenta, sabe representar nessa língua e pode orçamentá-la. Se emperra, sabe ler nessa língua, o que é outra coisa e muito mais pequena. Ler funciona para uma voz por cima de planos de produto e falha no momento em que a câmara está na sua cara, porque uma interpretação precisa que as palavras estejam noutro sítio que não à frente dos olhos.
Diga qual das duas está a propor. As marcas quase nunca perguntam, e ficam aliviadas quando alguém lhes diz.
Quando recusar
Há uma situação em que recusar é a resposta profissional: quando a língua luta contra o texto.
Se o texto é idiomático, engraçado, ou construído sobre um trocadilho, precisa de alguém que domine a língua. Entregá-lo por aproximação produz um ficheiro que a marca não pode passar e que não se fatura sem constrangimento. Proponha a alternativa: filma, entrega imagens limpas e legendas, eles trazem a voz.
Essa resposta perde um trabalho e ganha os três seguintes, porque uma marca a quem se disse a verdade uma vez volta a perguntar.



