Quase todos os criadores põem um número nas condições. Duas alterações incluídas, depois paga-se. Soa profissional e não resolve nada, porque o número diz quantas vezes uma coisa voltou e nunca porquê.

Duas idas e voltas causadas pelo mesmo mal-entendido são um só problema, e corrige-se de graça. Dez pequenas mudanças vindas de dez pessoas diferentes não são um assunto de política de alterações, são um briefing que nunca existiu.

As quatro causas, e quem paga cada uma

O briefing mudou

O produto mudou, a campanha andou, alguém de cima viu e quer outro ângulo. Isso é trabalho novo, é perfeitamente legítimo, e fatura-se sem constrangimento nenhum. Diga-o com calma e orçamente como um acrescento.

O texto nunca foi aprovado

Escreveu ou adaptou um guião, filmou-o, e agora a marca quer outras palavras. É a causa mais frequente e quase sempre evitável. Mande o guião ou as frases ditas para aprovação antes de filmar, e esta categoria toda desaparece.

O cliente simplesmente não gosta

Nenhum erro, nenhuma mudança de plano, só queria outro ambiente. Uma ronda dessas é normal e deve ir incluída, porque o gosto é real e a primeira versão é uma proposta. Uma segunda ronda pelo mesmo motivo quer dizer que nunca foi partilhada uma referência: peça um exemplo do que lhe agrada em vez de voltar a adivinhar.

Enganou-se

Enquadramento errado, som falhado, logótipo ao contrário. Isso corrige-se logo, sem custo, sem negociação e sem explicação. Ser rápido aqui compra mais boa vontade do que qualquer número num contrato.

CausaQuem pagaComo evitar da próxima vez
O briefing mudouA marca, como acrescentoRegistar por escrito a versão combinada
O texto não estava aprovadoNinguém, mas custa tempoFazer aprovar o guião antes de filmar
O gosto, primeira rondaIncluídaPedir uma referência antes de escrever
O gosto, segunda rondaA marcaExigir um exemplo em vez de adivinhar
Erro do criadorO criadorVer o ficheiro uma vez, inteiro, antes de enviar

A última linha é o hábito mais barato do ofício. Ver a própria entrega de ponta a ponta, com som, apanha quase tudo o que volta.

O que um mercado pequeno muda

Portugal é pequeno o suficiente para que os mesmos clientes voltem. Um contador rígido de alterações protege mal uma relação, porque o cliente lembra-se da discussão muito depois de ter esquecido a fatura.

A disciplina que funciona mesmo está a montante. Combinar o guião, combinar o formato, combinar quem dá o retorno, e combinar que o retorno chega uma vez, consolidado, por uma só pessoa. Este último ponto elimina mais idas e voltas do que qualquer cláusula, porque a maioria vem de três pessoas a comentar em separado ao longo de quatro dias.

Como responder quando chega um pedido de alteração

A resposta cabe em três frases e tem sempre a mesma forma.

Agradeça e diga que vai ver. Nomeie a causa em palavras neutras, que é a parte que toda a gente salta: esta é da minha conta, ou esta é uma mudança em relação ao que combinámos. Depois diga o que acontece a seguir, com uma data.

Escrita assim, uma alteração paga deixa de soar a litígio e passa a soar a gestão de projeto, que é o que é. A mensagem que gera discussões é a que diz que sim sem nomear a causa, porque o pedido seguinte chega a presumir a mesma resposta.

O que nunca é uma alteração

Alguns pedidos chegam escritos como uma pequena mudança e são uma segunda entrega.

Uma segunda língua é uma nova filmagem, não uma montagem. Outra proporção de imagem com outro enquadramento é no mínimo uma nova exportação, e muitas vezes uma nova montagem. Um novo gancho de abertura é um vídeo novo vestido com a roupa do antigo. Acrescentar legendas noutra língua também, ou fazer uma versão para uma conta publicitária com outras regras.

Nada disso é uma recusa. É um orçamento, enviado na mesma mensagem simpática, discriminado para o cliente escolher. Os clientes dizem que sim muito mais do que os criadores esperam, porque não estavam a tentar obtê-lo de graça, apenas não sabiam que era à parte.