Uma marca encomenda três vídeos de um cão a comer a ração dela. Parece mais fácil do que uma rotina de cuidado da pele e orçamenta-se igual, ao vídeo, entregue numa semana.

Depois o cão come uma vez, logo, fora de câmara, e não mostra o mínimo interesse pelo resto da tarde.

Não é um mau dia. É a condição normal deste vertical, e é por isso que o trabalho com animais é ou a coisa mais rentável que um criador faz, ou a menos, com quase nada pelo meio.

O que o torna mesmo diferente

Nem a desarrumação nem o barulho. É que o sujeito não se dirige, não se lhe pode pedir outra tomada, e está-se nas tintas para o que o cliente aprovou.

Qualquer outra filmagem tem uma pessoa a quem se pode dizer para repetir um bocadinho diferente. Até uma filmagem sem pessoas tem um produto que fica onde o pusermos. Aqui, aquilo de que o vídeo trata tem opinião própria sobre se hoje é dia de filmar, e nenhum profissionalismo muda isso.

Tudo o que há de prático neste artigo sai desse único facto.

Orçamente tempo, não vídeos

Cobrar ao vídeo transfere-lhe em silêncio um risco imprevisível.

Se o animal colaborar, acaba em noventa minutos e fica toda a gente contente. Se não, está na cozinha de alguém durante quatro horas pelo mesmo dinheiro, e já não sobra posição de negociação porque o preço estava combinado.

A versão que resulta é uma tarifa de sessão que cobre um bloco definido, com um número de entregáveis anunciado como resultado esperado e não como garantia. As marcas aceitam-no facilmente quando se explica uma vez, porque todas já viveram a tarde de quatro horas.

O que o briefing assumeO que acontece de verdadeO que o orçamento deve dizer
Três tomadas limpasUma tomada aproveitável, ao minuto quarentaUma sessão, não três vídeos
O cão olha para a câmaraO cão olha para o donoO lugar do dono planeia-se
Filmado à hora da refeiçãoFilmado quando o animal querUma janela, não uma hora
Repete-se se for precisoO animal já se fartou do produtoSegunda sessão orçamentada antes

A última linha resolve-se antes da filmagem e não depois. Um animal que já provou o produto dez vezes não vai fingir entusiasmo à décima primeira, portanto repetir é mesmo uma sessão nova e devia ter sido faturada como tal.

A preparação tira quase todo o problema

A diferença entre uma filmagem com animais que corre bem e uma tarde perdida decide-se quase toda antes de você chegar.

Três perguntas a fazer no orçamento

Se o animal o conhece, se está habituado a ser filmado, e a que horas costuma comer. As respostas mudam o seu planeamento mais do que qualquer decisão criativa.

Um animal que nunca o viu precisa dos primeiros vinte minutos para deixar de se importar com a sua existência, e esse tempo faz parte do trabalho em vez de o interromper.

O dono é a sua equipa

A pessoa que vive com o animal é a única a quem ele responde de forma fiável, portanto faça-lhe um briefing como colaborador em vez de lhe pedir que se afaste.

Diga-lhe onde ficar, o que dizer e o que não fazer, e aceite que o seu melhor plano será muitas vezes essa pessoa a segurar o produto mesmo fora do enquadramento. Não é um remendo, é como estas imagens se fazem.

Filme em contínuo, escolha depois

Tomadas longas em vez de montagens. O momento de que precisa quase nunca chega quando está pronto, e o custo de deixar rolar oito minutos não é nada comparado com perder a única vez em que o gato entrou bem no plano.

A decisão de segurança é sua

Alguém na filmagem tem de decidir quando o animal já chegou ao limite, e deve ser você e não o representante da marca a olhar para as horas.

Um animal stressado não dá imagens aproveitáveis de qualquer forma, portanto não há conflito entre o bem-estar dele e o resultado. Diga na fase do orçamento que para quando o animal para, e que não vai usar comida, contenção nem nada para forçar um momento. Ninguém sério discute, e isso resolve a questão antes de haver qualquer pressão na sala.

O que não deve afirmar

Tudo o que toca à saúde, à digestão, ao pelo, ao comportamento ou à nutrição pertence à marca e a quem trata do lado regulamentar dela.

Pode mostrar um animal a comer alguma coisa e descrever o que observou. Não pode dizer que um produto melhora seja o que for, e um briefing que lho peça tem de voltar com a formulação aprovada, por escrito. É a mesma disciplina de qualquer categoria enquadrada, e o facto de o cliente ser um cão não a suaviza.

Porque é que isto assenta em Portugal

As marcas portuguesas de animais são sobretudo pequenas, vendem por lojas independentes e pelo site próprio, e não têm meios para uma produção de estúdio numa categoria que vive inteiramente de animais reais em casas reais.

Isso faz delas exatamente o cliente de um criador capaz de trabalhar com calma na cozinha de alguém. É também uma categoria que se repete: a comida compra-se todos os meses, as gamas alargam-se sem parar, e um criador que já trabalhou bem com um animal concreto sai muito mais barato de voltar a contratar do que de substituir.

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Perguntas frequentes

Devo usar o meu próprio animal?

Se tiver um que tolere a filmagem, é uma vantagem competitiva a sério e vale a pena dizê-lo no perfil. Só fature as sessões da mesma maneira, porque o seu animal não é mais dirigível do que o de outra pessoa.

E se o animal simplesmente não quiser?

Entregue o que tem, diga com clareza o que aconteceu, e proponha uma segunda sessão à tarifa combinada. As marcas desta categoria já passaram por isso, e a honestidade no próprio dia protege a relação muito melhor do que uma tomada forçada.

Posso filmar no armazém da marca ou numa loja?

Só com as mesmas autorizações de qualquer espaço privado, e em geral são piores imagens. Os animais comportam-se normalmente em casa e de forma estranha em todo o resto.

Vale a pena este vertical sem experiência com animais?

Vale, e a competência útil é a paciência e não a perícia. Estar calmo, calado e disposto a esperar é a maior parte do trabalho.