As duas piores horas para filmar em Portugal são as duas horas em que quase toda a gente está livre.
Início da tarde, sol a pino, nada no céu que o suavize. É a hora a que um criador com outro emprego chega à mesa da cozinha, e é a hora em que as imagens deixam de servir.
Porque é que a luz boa é um problema
As marcas de fora escrevem briefings a pedir a luz portuguesa como se fosse um ingrediente. É, mas não no sentido em que o dizem.
O sol duro faz o contrário do que o UGC precisa
Um sol direto a pino produz uma zona pequena muito brilhante e uma sombra preta e dura, com quase nada pelo meio.
É exatamente o contrário do que um vídeo de produto precisa. A matéria desaparece, porque a matéria vive no degradê suave entre o iluminado e o que não está. A pele brilha de um lado e escurece do outro. Os rótulos queimam a branco. E o olho do espectador lê tudo isso como fotografia e não como uma pessoa a segurar alguma coisa, que é a única impressão que o UGC não pode dar.
A hora dourada quer dizer alguma coisa, e essa coisa é férias
O conselho padrão é filmar na hora antes do pôr do sol, e aqui esse conselho falha mais vezes do que acerta.
Um sol baixo e quente é lindíssimo e não é neutro. Neste país carrega uma associação concreta, construída por décadas de imagens de turismo, e diz férias, esplanada, fim de tarde, a semana de folga de outra pessoa. É perfeito para filmar um hotel e silenciosamente errado para um suplemento, um produto de limpeza, um suporte de portátil ou qualquer coisa que se usa numa terça de manhã.
Não está a escolher uma estética. Está a escolher o que o vídeo afirma sobre o momento em que o produto pertence à vida de alguém.
| Quando filma | O que a luz diz do produto | O que custa reparar na montagem |
|---|---|---|
| Meio-dia, na rua | Nada, diz fotografia | Irreparável, a matéria perdeu-se |
| Hora dourada | Férias, lazer, noutro sítio | Uma correção de cor, e continua a dizer lazer |
| Dia encoberto | Uma terça vulgar, honesta | Nada, é o ganho de graça |
| Interior, janela ao lado | A casa verdadeira de alguém | Uma pequena subida de exposição |
| Interior, com a luz do teto | Barato, tardio, um pouco triste | Uma luta longa, quase sempre perdida |
A terceira linha é a que ninguém quer acreditar. Um dia encoberto é o melhor tempo de filmagem do país, e os criadores continuam a adiar por causa dele.
As duas janelas que funcionam mesmo
Nenhuma exige equipamento, e é esse o ponto.
A primeira é a hora a seguir ao nascer do sol, antes de ele subir. A mesma suavidade da tarde, sem a associação de férias, porque essa associação colou-se aos poentes e nunca aos nasceres. É incómoda e é grátis.
A janela interior, de costas para o sol
A segunda é uma janela onde o sol não esteja, a qualquer hora.
Ponha-se de forma que a janela fique de lado e não atrás de si, coloque o produto onde a luz cai primeiro, e recue meio metro em relação ao sítio onde se pôs por instinto. É toda a técnica. Dá uma luz suave e direcional que mostra a matéria, mantém a pele uniforme e lê-se como a cozinha real de alguém, que é o registo de que o formato inteiro depende.
Filmar de frente para a janela transforma-o em silhueta. Filmar com a janela atrás da câmara achata tudo. Ao lado é a única resposta, e é a mesma em todos os países, mas aqui o contraste é duro o suficiente para o erro custar mais.
Quando não escolhe a hora
Às vezes a marca quer hoje, hoje está um sol enorme, e são duas da tarde.
Vá para a sombra com uma superfície clara e grande por perto: uma parede branca, um prédio claro, uma varanda debaixo de um toldo. O que procura é luz que tenha ressaltado pelo menos uma vez, e os prédios portugueses oferecem quantidades enormes de luz ressaltada de graça. Não se ponha debaixo de uma árvore: a sombra às manchas mexe-se na cara entre tomadas e nenhuma montagem a repara.
Se estiver preso em sol aberto sem sombra nenhuma, filme o produto e não a pessoa, feche o enquadramento, e grave o som à parte num sítio calmo. Um plano fechado de produto sobrevive a luz dura. Uma cara não.
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Perguntas frequentes
É preciso uma luz para filmar em interior cá?
Normalmente não. Entre a técnica da janela e a hora a seguir ao nascer do sol, a maioria das casas portuguesas dá melhor luz do que um painel pequeno, e o painel ainda por cima mete uma segunda temperatura de cor que depois é preciso combater.
E o Algarve e o sul no verão?
As mesmas regras, mais acentuadas. O contraste é mais duro e a janela útil mais estreita, portanto a manhã cedo deixa de ser preferência e passa a ser a única opção.
Não se arranja na montagem?
Salva-se uma imagem um pouco escura, não se salva uma queimada. Na dúvida, exponha para o mais claro do enquadramento, normalmente o rótulo ou o céu, e levante o resto depois.
Devo dizer à marca a que horas filmo?
Só se ela pediu um resultado de que discorda. Se um briefing pede hora dourada para um produto de dia de semana, diga o que essa luz vai implicar e ofereça as duas. A maioria pediu por hábito e muda de ideias depressa.