São também as duas horas em que a maioria das pessoas está livre. A luz que toda a gente inveja aqui é a que destrói as tomadas, e o conselho habitual agrava o caso.
Porque a bela luz é um problema
O sol duro faz o contrário do que o UGC precisa
Uma luz direta cria um contraste violento, no qual a pele queima e os detalhes desaparecem. Ora este formato vive precisamente do que se vê: a textura de um produto, uma mão que manipula, um rosto legível. O sol do meio-dia suprime os três. O que dá belas fotografias de férias dá maus vídeos de demonstração.
A hora dourada tem um sentido, e esse sentido é férias
A luz do fim do dia é magnífica, e é esse o problema. Conta um contexto: o descanso, a viagem, o lazer. Um vídeo de demonstração filmado nessa luz fala do sítio, não do produto, e quem vê retém o mar em vez do creme. Guarde-a para os raros vídeos cujo assunto é justamente o ambiente.
As duas janelas que funcionam mesmo
A janela interior, de costas para o sol
Sete afinações para a janela da manhã e a do fim da tarde, as duas únicas realmente utilizáveis todo o ano.
Colocar-se a um metro da janela, nunca colado a ela.
Virar as costas ao sol direto e o rosto para a superfície iluminada.
Fechar os cortinados finos em vez de abrir de par em par, o que suaviza sem escurecer.
Bloquear a exposição no rosto antes da primeira tomada.
Apagar os plafonds, cuja cor se mistura mal com o dia.
Pôr uma folha branca do lado oposto, tratado acima.
E refilmar o mesmo plano trinta minutos depois se o céu mudar, o que aqui acontece depressa.
Quando não escolhe a hora
Sete soluções quando a rodagem é imposta a meio do dia.
Filmar à sombra de um edifício, de frente para uma fachada clara.
Usar um chapéu de sol ou um tecido esticado como difusor por cima do sujeito.
Colocar-se sob um alpendre, com a luz a ressaltar do chão.
Filmar dentro com a porta aberta, o que dá uma bela luz lateral.
Escolher um fundo na sombra para evitar um segundo plano sobre-exposto.
Filmar o produto num segundo momento, separado do rosto.
E aceitar reagendar, o que uma marca compreende sempre quando se lhe explica porquê.
O interior português, caso a caso
Seis situações frequentes e a correção delas.
A casa com janelas dos dois lados, onde é preciso escolher uma só janela e fechar o outro lado.
O azulejo claro, que devolve uma luz útil mas fria, a corrigir no equilíbrio de brancos.
As paredes coloridas, que tingem o rosto e pedem um fundo neutro.
A cozinha em mármore ou pedra clara, excelente superfície de ressalto.
O apartamento pequeno e escuro, onde filmar do corredor para a divisão iluminada funciona melhor.
E a sombra funda das ruas estreitas, onde a única solução é filmar na berma da zona iluminada.
O que não se corrige na montagem
Seis problemas que nenhuma correção repara.
Uma zona queimada, que já não contém informação nenhuma.
Uma sombra dura sobre metade do rosto.
Uma mudança de luz a meio de um plano contínuo.
Um fundo sobre-exposto que puxa o olho para fora do sujeito.
Um tom de pele diferente entre dois planos que deviam seguir-se.
E o reflexo do sol num produto brilhante, que tapa exatamente o que era preciso mostrar.
O material mínimo que muda tudo
Seis compras modestas, por ordem de utilidade.
Uma folha de cartão branco, a mais barata e a mais eficaz.
Um tripé, sem o qual nada do que precede se aguenta.
Um tecido branco fino, que serve de difusor à frente de uma janela.
Uma mola para prender o tecido ou o cartão.
Um pequeno painel de luz de apoio, útil ao fim do dia no inverno.
E um microfone, que nada muda na luz mas resolve a outra metade do problema.
O que permite cada momento do dia
| O momento | A luz | O que se filma então |
|---|---|---|
| O início da manhã | Suave e rasante | Os rostos e os exteriores |
| O pleno meio-dia | Dura, vertical | Nada lá fora, tudo cá dentro |
| O fim da tarde | Quente e longa | Os planos gerais e o movimento |
O que se corrige sem material
O contraste violento do meio-dia. Uma parede branca colocada do lado sombreado devolve luz suficiente para abrir as sombras, e não custa absolutamente nada.
O que se planeia num dia de filmagem
Os planos exteriores nos extremos do dia, os interiores no meio. Essa organização duplica o número de planos utilizáveis sem alongar o dia nem um minuto.
O que dizer à marca
Cinco informações a comunicar, que evitam mal-entendidos.
A hora prevista da rodagem, que explica o resultado.
A eventual necessidade de adiar se o céu estiver instável.
O facto de a luz não ser idêntica entre dois vídeos filmados em dias diferentes.
A escolha assumida de uma luz neutra em vez de dourada, com a razão dela.
E a possibilidade de refilmar um plano preciso se o resultado não servir, em vez do vídeo inteiro.
Uma última referência: em Portugal a dificuldade não é encontrar luz, é encontrar uma que não conte férias. Uma janela, uma parede clara em frente e um tripé chegam para produzir todo o ano uma imagem utilizável, e custa menos do que qualquer projetor.



