Quase todas as fotografias do Porto que alguma vez deram vontade de lá ir foram tiradas de Vila Nova de Gaia. O rio, a ponte, a encosta de casas: é essa a vista deste lado, e pertence a quem cá mora.

Os criadores da margem sul descrevem-se muitas vezes como estando perto do Porto, e assim deitam fora a única coisa que têm e o Porto não tem.

Ser o cenário de outra cidade

Há uma versão prática e uma comercial.

Na prática, consegue entregar a imagem do Porto sem atravessar o rio, a qualquer hora, com qualquer luz, sem disputar o lugar a quem a tenta fotografar de dentro. É uma vantagem de produção a sério e não custa nada.

Em termos comerciais, quer dizer que uma marca que queira a cidade como cenário pode contratá-lo a si em vez de alguém do centro, e isso diz-se com estas palavras. Estar do lado certo para o plano é uma razão para ser contratado, e é invisível enquanto não for dita.

Dois compradores dentro da mesma cave

As caves da marginal são a indústria mais visível daqui, e cada uma vende a duas pessoas que não têm nada em comum.

O visitante com duas horas

Está cá hoje, tem um bilhete ou está a escolher um, e vai decidir na próxima hora. O que o move é prático e imediato: quanto tempo demora a visita, quanto custa, se funciona com crianças, se é preciso marcar.

O importador que nunca virá

O outro comprador é um distribuidor, um grupo de restauração ou um retalhista noutro país. Nunca vai pôr os pés na cave, e está a decidir sobre uma gama, uma história e uma relação de fornecimento que dura anos.

O conteúdo dele não se parece nada com o primeiro. É mais lento, é na língua dele, e fala do produto e das pessoas em vez de falar da experiência de visitar.

O que isso muda no dia da filmagem

Filme para os dois numa só visita em vez de fazer duas deslocações. O material de visitante é curto, luminoso, e filma-se por onde o público passa. O material de exportação é mais silencioso, mais fechado, e pede muitas vezes um sítio onde o público não entra.

Combinar o que é o quê antes de chegar evita a tarde perdida mais frequente deste setor.

A quem o cliente vendeDo que precisaOnde se filma
Um visitante que decide hojeDuração, preço, marcação, acessoA entrada, a visita, a prova
Um visitante que planeiaO percurso desde a ponte, a vistaNa rua, à hora certa
Um importador estrangeiroProduto, pessoas, continuidadeA cave, as pipas, quem faz o lote
Um retalhista lá foraAlgo para mandar às equipas deleUma explicação curta na língua dele
Um grupo de restauraçãoComo servir, como falar do produtoFechado, técnico, sem glamour

A quarta linha é a que ninguém filma e todos os importadores pedem. As equipas do outro extremo da cadeia têm de explicar um produto que nunca viram ser feito, e dois minutos de vídeo conseguem-no melhor do que uma ficha comercial.

O rio é uma restrição de produção

Duas margens, meia dúzia de pontes, e muita gente a atravessar às mesmas horas. Isso é um facto logístico antes de ser pitoresco.

Atravessar com material à hora errada custa boa parte de uma hora, e a descida até ao cais e a subida da encosta são íngremes o suficiente para contarem quando se leva alguma coisa. Cada um destes pontos é banal uma vez, e os dois estragam um dia planeado como se o mapa fosse plano.

O hábito que resulta é montar a filmagem à volta de uma margem por meio dia, e tratar qualquer travessia como um bloco fixo de tempo e não como um pormenor entre dois locais.

O que a margem sul lhe dá

Três coisas que vale a pena nomear num perfil.

Espaço, porque estúdio, arrumação e um apartamento com uma divisão para filmar custam menos cá do que do outro lado. Acesso, porque as caves, a marina e as praias a sul da foz estão todas à mão sem um dia de viagem. E a vista, esse trunfo que qualquer marca de passagem julga ter de ir buscar ao Porto.

Diga onde está, com precisão. Uma marca que procura Porto vai encontrar cem criadores, e uma marca que precisa deste troço de rio em concreto vai encontrá-lo a si.