Um transitário, um operador de armazém ou um terminal têm o mesmo problema de conteúdo, e é um problema a sério. O produto é um serviço, o serviço é invisível, e a qualidade dele mede-se por coisas que não aconteceram: sem atraso, sem dano, sem surpresa na alfândega.

Não se filma uma ausência. Por isso a maioria das empresas do setor publica um plano de drone sobre um terminal, uma fotografia de banco de um contentor e uma página de números, e depois estranha que nada mude.

Duas aberturas, e uma é grátis

A escala, que já é sua

O único trunfo visual que esta indústria tem em abundância é o tamanho, e fotografa extraordinariamente bem. Gruas, pilhas, o comprimento de um cais, um corredor de armazém que desaparece, um navio a chegar às seis da manhã.

Essas imagens são mesmo impressionantes e estão ali todos os dias. O setor subaproveita-as porque de dentro parecem óbvias, e o que é óbvio de dentro costuma ser extraordinário de fora.

A única condição é que pareçam reais e não institucionais. Um voo de drone com música é um protetor de ecrã. A mesma grua filmada do chão, com o barulho lá dentro, é um sítio onde há gente a trabalhar.

A passagem de testemunho, que ninguém filma

Toda a operação logística é uma cadeia de momentos em que a responsabilidade passa de uma parte para outra: o selo, a leitura, a assinatura, o motorista a verificar um documento, um contentor a pousar.

Esses momentos são o produto em si. São curtos, concretos e fáceis de gravar, e são o mais próximo que o setor tem de mostrar aquilo que vende.

A noite, que é a melhor hora do dia

Boa parte deste trabalho acontece depois de escurecer, e é aí que as imagens deixam de parecer um folheto. Luz alaranjada sobre um cais molhado, uma empilhadora a mover-se sob os projetores, uma cabina de camião iluminada por dentro.

É também o momento em que a instalação tem menos visitas e é mais fácil de percorrer. Peça uma visita noturna em vez de uma diurna e volta com material que mais ninguém do setor tem.

O que o público está mesmo a decidir

Um carregador que escolhe um parceiro não compara serviços no papel, onde todos se parecem. Decide a quem vai conseguir ligar às onze da noite quando alguma coisa correr mal.

Isso faz do conteúdo mais valioso deste setor a pessoa. Dois minutos do responsável de operações a explicar o que acontece quando um navio se atrasa fazem mais do que qualquer filme de capacidades, porque respondem à pergunta que tira mesmo o sono a um comprador de logística.

O que o setor costuma publicarO que o comprador quer ver
Um plano de drone com músicaO cais ao ritmo do trabalho, com som
Números de capacidadeUma passagem de testemunho, de ponta a ponta
Um armazém vazioO turno da noite, e quem o faz
Uma lista de serviçosA pessoa que atende às onze da noite
Uma menção genérica à alfândegaComo uma exceção é mesmo tratada

A última linha é a mais pedida e a menos publicada. Todos os compradores já tiveram um envio que correu mal, e o fornecedor que mostra o que faz nessa situação fala à única memória que conta.

O cliente do seu cliente

Há um segundo público a quem quase ninguém no setor se dirige, e chegar-lhe não custa nada: o cliente do seu cliente.

Um retalhista à espera de stock, uma fábrica à espera de um componente, uma obra à espera de material. Essas pessoas nunca veem a cadeia logística e carregam as consequências dela. Conteúdo feito para elas, e entregue ao seu cliente para reencaminhar, faz o seu cliente ficar bem e põe o seu nome numa sala para onde nunca é convidado.

É também o conteúdo mais fácil de fazer, porque é explicativo e não promocional: onde está a mercadoria, porque é que um passo demora o que demora, o que acontece a seguir.

Os dois erros

Filmar só de dia, quando boa parte deste trabalho acontece de noite e fica muito melhor então. E filmar uma instalação vazia porque está mais arrumada, o que retira a única coisa que torna as imagens convincentes, que é haver gente a trabalhar.