O briefing diz: mostre como o serviço funciona.

Não há nada para mostrar. Ninguém consegue segurar uma consulta na mão, desembrulhar uma subscrição de software ou fazer a demonstração de uma apólice de seguro. A câmara chega, aponta a uma cara, e o vídeo passa a ser uma pessoa a descrever uma coisa que o espectador não vê.

Só esse facto estrutural está por trás de quase todo o UGC de serviços que desilude, e não é um problema do criador. É um problema de briefing, e tem uma solução mais interessante do que o conselho habitual.

Porque é que o UGC de serviços escorrega para a explicação

Duas forças o empurram para lá, e ambas parecem razoáveis na altura.

Sem objeto, a câmara aponta a uma cara

Num produto, é o objeto que trabalha. Pega-se nele, abre-se, usa-se, compara-se, e o espectador vê a coisa que compraria.

Tire o objeto e o enquadramento esvazia-se. Fica uma pessoa a falar, e assim que um vídeo é uma pessoa a falar, o natural é pô-la a contar como o serviço funciona. Ninguém decidiu isso. É o que sobra quando tudo o que era filmável foi retirado.

Explicar é o que o formato faz pior

O UGC resulta porque parece alguém a dizer uma coisa a alguém de passagem. Uma explicação não acontece de passagem. Exige estrutura, sequência e paciência, e as três são o contrário do que segura a atenção num vídeo curto.

É por isso que os vídeos de serviços parecem tantas vezes um anúncio mais lento. Não por estarem mal feitos, mas por tentarem o único trabalho para o qual o formato menos serve, e fazê-lo bem significaria fabricar uma coisa que já não é UGC.

O serviçoO que a marca pede para filmarO que é mesmo filmável
Contabilidade ou escrituraçãoA explicação do processoA caixa de recibos, antes
Um softwareUma visita guiada ao ecrãA folha de cálculo que substituiu
Uma clínica ou um tratamentoA descrição do métodoA sala de espera, a primeira chamada, a mensagem de seguimento
Um ofício, uma reparaçãoO trabalho em siO estado da coisa antes, e a divisão depois
Uma agência de viagensO itinerárioO momento em que alguém o recebe no aeroporto

Releia a coluna da direita. Cada entrada é uma coisa física e datável que uma câmara consegue registar, e nenhuma é o serviço. É toda a técnica.

Filme o rasto, não o serviço

Um serviço é invisível enquanto acontece e deixa rastos de ambos os lados. Os rastos são o seu material.

Os três momentos filmáveis

O primeiro é o estado de antes. A pilha de papéis, a coisa partida, a divisão tal como estava, a inquietação de não saber. É filmável, é honesto, e trabalha mais do que qualquer descrição de método, porque o espectador reconhece ali a sua própria versão.

O segundo é a entrega. Todo o serviço tem um momento em que alguma coisa passa de uma pessoa para outra: as chaves, o relatório, a primeira mensagem, alguém que chega à porta. É o único acontecimento verdadeiramente fotogénico da maioria dos serviços e quase ninguém o filma.

O terceiro é o artefacto. Mesmo os serviços que não produzem nada físico produzem alguma coisa: um documento, um plano, uma pasta, um calendário na parede. Filmar o artefacto torna concreta uma compra abstrata, e o concreto é o que tira a hesitação.

Nenhum dos três explica seja o que for. Mostram que alguma coisa aconteceu, que é a única afirmação de que um vídeo de serviço precisa.

O que tem de ser um criador de serviços

Aqui a lógica de casting afasta-se do trabalho de produto, e em Portugal afasta-se mais.

Escolha o cliente, não um criador

A maioria destes serviços compra-se localmente, a gente que podia igualmente perguntar a um vizinho, a um primo ou a um colega. É esse o seu concorrente verdadeiro: não outro anúncio, uma recomendação pessoal.

Isso fixa a fasquia com precisão. O vídeo tem de parecer essa recomendação, e quem melhor a pode dar é um cliente a sério e não um criador profissional. Um cliente um pouco desajeitado à frente da câmara, capaz de dizer em que estado estava antes, convence mais do que um desconhecido impecável, porque o desajeito é ele próprio a prova.

Na prática: peça a três clientes atuais, filme-os em casa ou no local de trabalho deles, pergunte pelo antes e não por si, e aceite que dois dos três não vão servir. O terceiro será a melhor coisa que tem.

Onde isto falha

Duas situações, e mais vale nomeá-las do que pagar para as descobrir.

A confidencialidade primeiro. Alguns serviços não podem mostrar o estado de antes, nem nomear o cliente, nem filmar a entrega, e se for o seu, a resposta honesta é que o material útil está vedado e o vídeo deve ser sobre as pessoas que fazem o trabalho.

A segunda é um serviço que ninguém decidiu ainda que quer. Se o espectador não sabe que aquela categoria de problema se resolve, um vídeo que mostra a prova de uma solução aterra em alguém que não sabia que havia uma pergunta. É o caso em que a explicação é mesmo precisa, e deve ser outro conteúdo, mais longo, emitido antes do UGC e não no lugar dele.

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Perguntas frequentes

Podemos usar um criador em vez de um cliente verdadeiro?

Para o enquadramento de vida, pode. Para a prova, não, porque o valor está em ter acontecido. Um criador pode apresentar o artefacto; só um cliente pode dizer como era o antes.

E os testemunhos?

Um testemunho é uma afirmação sobre si. Uma prova é um facto sobre ele. O segundo convence mais e ainda é mais fácil de filmar, porque está a pedir a alguém que descreva a própria situação em vez de elogiar um fornecedor.

Como conseguimos que os clientes aceitem?

Peça pouco depois de o trabalho ter corrido bem, peça quinze minutos e não um favor, e seja concreto quanto ao sítio e à data. A maioria diz que sim e depois nunca arranja tempo, portanto a data conta mais do que o pedido.

O vídeo deve dizer o preço?

Só se for fixo e público. Para serviços de preço variável, diga quanto custa a primeira conversa, que muitas vezes é nada, e deixe o vídeo tirar o medo de perguntar em vez do medo de pagar.