Uma marca lança um sérum em Portugal e encomenda oito vídeos de criadores. Seis semanas depois os números do retalho estão bem e os da farmácia não mexeram, e ninguém sabe dizer porquê, já que é o mesmo produto e são os mesmos vídeos.

Os vídeos foram feitos para um dos dois compradores. Neste país uma marca de beleza chega à mesma cara por duas vias, e elas não se comportam nada da mesma maneira.

Dois compradores, um só produto

A diferença não é demográfica. É a mesma pessoa, conforme o dia, conforme a maneira como chegou.

Ao balcão chega-se com uma pergunta

Entra-se numa farmácia porque alguma coisa está mal. A pele reagiu, o tratamento secou tudo, o dermatologista disse para procurar uma coisa suave. Não se está a ver montras, está-se a perguntar, e a resposta em que se confia vem de quem está atrás do balcão.

A compra acontece dentro de uma conversa. O que a marca fez nas redes está a montante dessa conversa, e o papel dela era tornar o produto reconhecível quando o balcão o nomeia, não fechar a venda sozinho.

Na prateleira chega-se com uma vontade

Um supermercado ou um corredor de beleza é um ato completamente diferente. Ninguém é consultado. A cliente viu qualquer coisa, lembrou-se de um frasco, e decidiu em quatro segundos sem nenhum especialista na sala.

Aqui o vídeo do criador carrega mesmo a venda, porque já não há nada entre o vídeo e a prateleira.

O que muda no briefing

A maioria das marcas escreve um só briefing na esperança de que sirva para os dois. Não pode, e os dois fracassos têm caras diferentes.

A demonstração substitui a promessa num caso, no outro não

Para a via farmácia, o que viaja é o produto a fazer alguma coisa visível: a textura, a quantidade que se tira, o aspeto depois de absorvido, o que não deixa. Conteúdo que a equipa da farmácia poderia repetir a um cliente.

Para a via prateleira, o que viaja é o desejo e o reconhecimento: o frasco numa mão, numa casa de banho, numa vida que se olha com vontade. Ninguém diante da prateleira precisa que lhe expliquem o mecanismo.

A questão das alegações não é do criador

O que um cosmético ou um suplemento pode dizer de si mesmo é regulado, e o que é permitido depende da classificação do produto e do processo que o sustenta. Não é um juízo de criador nem de agência.

Mande cada linha de guião que soe a efeito para a área regulamentar da marca antes da filmagem, e não depois da entrega. Uma marca que não tem ninguém nesse lugar para um produto que vende em farmácias tem um problema maior do que o calendário de conteúdos.

O que o vídeo tem de fazerVia farmáciaVia retalho
Papel do vídeoTornar o conselho do balcão reconhecívelCarregar sozinho a decisão inteira
Em quem confia quem vêNo profissional, não no criadorNo criador, por inteiro
Melhor formatoDemonstração cerrada, textura, rotinaDesejo, contexto, uma vida à volta
Erro fatalPrometer um resultadoExplicar o mecanismo
Onde é vistoAntes da visita, e em casa depoisNo corredor, ou minutos antes

A última linha reorganiza um plano de meios. O conteúdo de farmácia trabalha antes e depois da visita, portanto tem de sobreviver a uma segunda visualização. O conteúdo de prateleira consome-se uma vez, num scroll, e não precisa de sobreviver a nada.

A audiência que ninguém encomenda

Existe um terceiro espectador e quase nenhuma marca lhe faz briefing: a equipa da farmácia.

É ela que decide o que se recomenda. Um balcão que nunca usou o produto vai nomear a marca que conhece, sempre, e nenhuma cobertura de grande público muda isso. As farmácias portuguesas são além disso maioritariamente independentes e não uma cadeia nacional a decidir de forma central, o que quer dizer que a recomendação se ganha balcão a balcão.

Conteúdo de criador dirigido a essa audiência é um entregável real e subaproveitado. Peças curtas que mostram o produto em uso, dizem para quem é, e dão ao balcão palavras que pode repetir. Nunca passa como anúncio. Circula pelos canais próprios da marca até quem recomenda, e os criadores faturam isso como uma encomenda à parte, porque é.

Como vai saber se resultou

Não como na prateleira, e fingir o contrário é o que produziu a campanha do início deste artigo.

Uma venda em farmácia não tem um clique antes dela. Ninguém chega ao balcão com um link, a compra acontece numa conversa, e não existe caminho honesto entre uma visualização e uma caixa que sai de uma prateleira em Braga. As marcas que julgam o conteúdo de farmácia com as métricas do conteúdo de retalho vão concluir que falhou, porque a única prova que ele produz não se parece com nada.

O que resulta é mais lento e mais direto. Olhe para o escoamento por farmácia numa janela mais longa do que a de uma campanha social, porque um hábito de recomendação forma-se em meses. E pergunte aos balcões: um delegado que visita vinte farmácias e pergunta com o que é que as pessoas chegam aprende mais numa semana do que um painel num trimestre. Se os clientes começarem a chegar com as palavras do produto na boca, o conteúdo chegou-lhes.

Assente essa expectativa antes de encomendar e não depois, porque a tentação de cortar o conteúdo de farmácia na semana três é enorme e quase sempre um erro.

O que encomendar, em concreto

Separe a encomenda em vez do orçamento.

Peça um pequeno lote de demonstrações construídas para serem vistas devagar, um lote distinto construído para o scroll, e, se a farmácia pesa mesmo na sua distribuição, um bloco curto para o balcão. Criadores diferentes podem levar metades diferentes: quem é excelente em desejo raramente é quem é excelente a mostrar textura de perto.

E faça o briefing dos dois lotes em separado mesmo que o mesmo criador filme tudo numa tarde. A poupança é real e a confusão é o que produziu os oito vídeos que só funcionavam num canal.

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Perguntas frequentes

Um só vídeo pode servir os dois canais?

Às vezes, e não é o plano sobre o qual construir. Um único material que tem de explicar e seduzir ao mesmo tempo costuma não fazer nenhuma das duas coisas, e fica mais barato filmar duas versões numa sessão do que emitir uma que rende pouco duas vezes.

Vale também para os suplementos?

Vale, e de forma mais vincada, porque a componente de conselho é maior e a questão das alegações é mais apertada. Trate a verificação regulamentar como parte do briefing e não como um passo de aprovação no fim.

Como se faz o briefing a um criador que não é profissional de saúde?

Dê-lhe a demonstração e guarde a interpretação. Um criador pode mostrar o que um produto faz e descrever a sua própria experiência. O que trata e para que serve é a frase da marca, e tem de chegar já aprovada.

O conteúdo de farmácia compensa para uma marca pequena?

Se a farmácia é onde vende mesmo, é o conteúdo com maior alavanca que pode encomendar, precisamente porque muito poucas marcas o fazem. Se vende online e em prateleira, ponha o dinheiro no scroll.