Parte do que pagou pelo primeiro vídeo foi um desconhecido a perceber o que o seu produto faz.

Nem a filmagem nem a montagem. A meia jornada anterior, passada a abrir a caixa, ler o rótulo, usar mal a coisa uma vez, e decidir o que ela tem de interessante. Pagou isso, não está em fatura nenhuma, e quase todas as marcas voltam a comprá-lo no mês seguinte a outra pessoa.

Porque é que o segundo é melhor

Não é fidelidade e não é um favor. É uma redução simples do trabalho necessário para chegar ao mesmo resultado.

Os primeiros trinta segundos mudam

Veja um primeiro vídeo e um quarto da mesma pessoa: a diferença está no início.

No primeiro, a abertura é alguém a orientar-se. Apresenta o produto, explica o que é, e chega à parte interessante lá para o meio. No quarto começa pela parte interessante, porque sabe o que é desde o segundo.

Só essa mudança vale mais do que qualquer progresso de luz ou de dicção, e acontece sozinha. Ninguém precisa de a briefar.

Começa a reparar em coisas que não briefou

O segundo efeito demora mais e vale mais.

Um criador que usa o seu produto há alguns meses começa a dizer-lhe coisas: que pergunta se repete nos comentários dele, que função as pessoas percebem mal, o que a embalagem aguenta mal numa casa de banho. Nada disso estava num briefing porque não o sabia, e nada vem de quem filma o seu produto pela primeira vez.

É o momento em que a relação deixa de ser uma compra e passa a ser uma fonte de informação sobre o seu próprio produto, coisa por que as marcas pagam muito a institutos.

O que paga no vídeo umO que paga no vídeo quatroPorquê a diferença
Aprender o produtoNada, já o conheceComprou isso uma vez
Procurar o ânguloEscolher entre ângulosJá testou alguns
Um palpite sobre a audiênciaUma leitura dos comentáriosViu a sua audiência reagir
Filmagem e montagemFilmagem e montagemIgual, é este o trabalho a sério
Explicar as suas regras de marcaNada, ele lembra-seSó se manteve o mesmo briefing

Repare na primeira linha e na última. São custos que se podem pagar uma vez ou pagar sempre, e a diferença entre esses dois hábitos é invisível numa campanha e muito visível num ano.

O que acaba mesmo com uma relação recorrente

Raramente o dinheiro. Quase sempre uma coisa que a marca não viu que estava a fazer.

A conversão lenta em pessoal

Começa de forma razoável. Podia pôr também na sua story? Podia responder aos comentários, que conhece o produto melhor do que nós? Podia ver este briefing antes de o mandarmos aos outros? O que acha da embalagem?

Cada um desses pedidos é pequeno e nenhum é pago. O criador absorve-os durante um tempo, porque a relação é boa e recusar parece mesquinho, e depois num mês responde mais devagar, e no seguinte não está disponível.

A marca vive aquilo como um criador que se tornou pouco fiável. O que aconteceu é que um fornecedor foi transformado aos poucos em membro não pago da equipa e foi-se embora, que é o que qualquer fornecedor faz.

A solução não é deixar de pedir. É pagar esses pedidos, ou nomeá-los como favores em voz alta para que os dois lados vejam a conta. Um criador pago por uma hora de opinião sobre um briefing dá-lhe opinião durante anos.

Como estruturar

A forma prática conta mais do que a boa vontade.

Reserve blocos, não vídeos

Combine três ou quatro vídeos ao longo de um trimestre em vez de encomendar cada um quando a necessidade surge.

Isso muda os dois lados. O criador consegue planear, portanto as suas datas são cumpridas em vez de encaixadas à volta de trabalhos mais bem pagos. Você obtém um preço que reflete volume comprometido e não uma série de orçamentos avulsos. E, o mais útil, deixa de reexplicar a marca de cada vez, porque um bloco partilha um só briefing.

Mantenha as condições de utilização idênticas em todo o bloco. Prazos diferentes por vídeo é como uma marca acaba sem saber que material pode emitir, e é inteiramente obra sua.

Quando parar

Existe um ponto final verdadeiro, e fingir o contrário é como uma marca acaba com um criador cujos vídeos são todos parecidos.

Quando o terceiro vídeo seguido podia ter sido feito sem que enviasse fosse o que fosse, a relação tornou-se confortável, e o confortável é precisamente o que deixa de resultar. Mude o formato, mude o briefing, ou acrescente um segundo criador ao lado em vez de substituir.

Em Portugal há mais uma razão para acabar bem em vez de deixar apagar. A bolsa de criadores que servem mesmo para um nicho é cá pequena, falam entre si, e um criador bem tratado é a razão pela qual o seguinte responderá à sua primeira mensagem. Vale mais do que a pequena poupança de deixar uma relação acabar mal.

Para continuar lendo

Encontrar criadores portugueses →


Perguntas frequentes

Pedimos exclusividade se trabalharmos juntos com regularidade?

Só se a pagar, e só face a concorrentes nomeados. Uma exclusividade pedida como gesto de fidelidade é um custo real para ele e produz ressentimento em vez de compromisso.

A mesma cara acaba por render menos?

Pode acontecer, e isso vigia-se em vez de se assumir. A solução habitual é manter o criador e mudar o formato, porque o valor construído é o conhecimento do produto e não a cara.

Como orçar um bloco face a vídeos avulsos?

Pergunte-lhe, e conte que o preço por vídeo desça um pouco em troca de datas comprometidas. Se não descer nada, continua a comprar fiabilidade, o que já vale por si.

E se só precisarmos de um vídeo por trimestre?

Diga-o com clareza e mantenha a relação morna pelo meio. Um criador que tem notícias suas duas vezes por ano com trabalho a sério não é a mesma proposta que um contactado só na urgência.