Volte a ouvir os seus próprios brutos e conte as frases.

A primeira é pigarro. A segunda prepara alguma coisa. A terceira costuma ser aquela em que se esqueceu da câmara e disse o que pensava mesmo, e está num sítio a que quase ninguém vai chegar.

Só essa observação vale mais do que qualquer técnica de montagem, e é o princípio da única regra que conta aqui.

A montagem de UGC é subtrativa

Qualquer outra montagem é uma arte da soma. Constrói-se uma sequência, sobrepõe-se som, desenha-se uma imagem. O UGC é o único formato em que o trabalho vai ao contrário.

O que acrescentar sinaliza

Música por baixo de tudo. Uma transição entre cada plano. Texto no ecrã em cada frase, com um tipo de letra que escolheu. Cada uma dessas decisões é razoável, e juntas emitem uma só mensagem: alguém trabalhou nisto.

É aí que está o problema. Todo o valor do formato está em parecer alguém a dizer uma coisa a alguém, e o esforço é a diferença visível entre uma pessoa e um anúncio. Não a qualidade, o esforço. Um vídeo cru feito claramente de uma vez convence mais do que um polido, e o polido custou-lhe mais horas.

A primeira passagem deve tirar em vez de construir. Corte o pigarro, corte a segunda tentativa da mesma frase, corte o bocado onde anuncia o que vai mostrar, e veja o que sobrevive.

Ponha a melhor frase à frente

A regra de que a abertura decide tudo repete-se tanto que deixou de ser um conselho. Aqui está a versão útil: já tem uma boa abertura, só está no sítio errado.

Pegue na frase que citaria se lhe perguntassem o que o vídeo diz, e ponha-a primeiro. Deixe o contexto vir a seguir. O espectador aceita uma explicação depois de uma afirmação forte e abandona uma explicação que a precede, o que é exatamente o contrário da forma como se fala naturalmente, e é nessa distância que se perdem quase todos os brutos.

O que acrescentou na montagemO que devia fazerO que sinaliza na realidade
Música por todo o ladoCriar um ambienteIsto foi produzido
Uma transição entre planosParecer acabadoAlguém tinha um programa
Texto em cada fraseAjudar a perceberNinguém confia no que é falado
Um logótipo no fimFechar em condiçõesO anúncio confessa-se sozinho
Legendas incrustadas, sóbriasDar para ver sem somNada, esta sai de graça

A última linha é o único acréscimo que não lhe custa credibilidade, e é o que mais se salta.

A armadilha das legendas em português

Aqui está a parte local, e apanha gente que de resto faz tudo bem.

As legendas automáticas saem em português do Brasil

A maioria dos programas de montagem e das plataformas gera as legendas em português brasileiro a não ser que se diga o contrário. A ortografia muda, parte do vocabulário muda, e o resultado é um vídeo filmado cá, falado cá, e legendado como se viesse de outro sítio.

Ninguém se vai queixar. Um espectador português apenas regista, sem saber dizer porquê, que o vídeo não é bem o dele, e uma marca que o revê pode não dar por nada até alguém da equipa reparar.

Releia as legendas antes de exportar, sempre. Leva um minuto, é invisível quando é feito e silenciosamente prejudicial quando é saltado, e é o defeito evitável mais frequente no UGC entregue em Portugal.

O mesmo vale para qualquer texto que incruste. Verifique as convenções em vez de confiar no hábito, sobretudo se consome muito conteúdo brasileiro, o que é o caso de quase toda a gente cá.

O que entregar

Entregue uma versão limpa e diga o que ela é.

Um master sem música, sem logótipo, e com legendas que se possam desligar se a marca quiser as dela. Se o briefing pedia versão com música, entregue as duas com nomes claros, porque uma marca que recebe um único ficheiro com a música incrustada perdeu a possibilidade de o usar onde a música não serve.

Guarde as tomadas não usadas durante um mês. O pedido mais frequente depois da entrega não é uma alteração da montagem, é outra frase da mesma tarde, e quem apagou tudo tem de voltar a filmar por um pedido que teria levado cinco minutos.

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Perguntas frequentes

Devo usar música alguma vez?

Quando o briefing pede, ou quando o vídeo não tem fala. Debaixo de um vídeo falado, compete com a única coisa que lhe pagavam para captar.

Que duração deve ter a peça acabada?

A da parte útil, e não mais. Cortar para atingir uma duração é a forma como a boa frase é aparada em nome do formato.

As marcas querem os brutos?

Algumas querem, e mais vale perguntar do que assumir. Enviá-los sem que os peçam dá a entender que a montagem é negociável, e não enviar nenhum quando eram esperados atrasa tudo.

Vale a pena aprender um programa a sério?

Para UGC, pouco. As competências que contam são escolher que frase vai primeiro e aceitar cortar o próprio bom material, e nenhuma delas mora dentro do programa.