Está prestes a filmar duas vezes o mesmo vídeo, um a seguir ao outro, com a mesma camisa.

Quem vir as duas versões vai saber logo, e o algoritmo que as serve a dois públicos que às vezes se sobrepõem também. A camisa é só o sintoma visível. O erro por baixo é tratar a segunda língua como mais uma tomada do mesmo trabalho.

A segunda língua é um segundo vídeo

Tem o seu guião, o seu ritmo, as suas piadas e a sua duração, porque as palavras não medem o mesmo e as frases não caem no mesmo sítio.

O que o cliente está mesmo a comprar

Duas peças que vão correr para dois públicos, ser medidas em separado e resultar ou falhar de forma independente. Do lado dele são dois ativos. Do seu, deviam ser duas linhas de fatura.

Cobrá-la como variante é como se perde dinheiro

A frase que mais caro sai aos criadores belgas é «e o mesmo em neerlandês». Soa a acréscimo pequeno e é quase uma segunda produção: outra interpretação, outra montagem, outra ronda de alterações, e o dobro da probabilidade de refilmar.

Orçamente-a como um segundo vídeo com desconto pelo cenário partilhado, não como uma opção do primeiro. Um valor colado à segunda língua até faz um favor ao cliente: obriga-o a decidir se precisa mesmo dela, melhor conversa do que descobrir à terceira semana que nunca a usou.

A ordem de filmagem conta

Filme primeiro a língua mais fraca

Quase todos os criadores estão mais à vontade numa das duas. O instinto é fazer a fácil primeiro e despachá-la.

Faça o contrário. Filme a língua mais fraca enquanto está fresco, antes de ter fixado um ritmo e uma gestualidade na outra. Se gravar primeiro a versão confiante, a segunda torna-se uma imitação cansada, e vai ouvir-se a traduzir em vez de a falar.

A legenda é acessibilidade, não cobertura de mercado

Um vídeo em neerlandês legendado em francês enviado a um público francófono é um vídeo em neerlandês com um pedido de desculpas colado. O espectador percebe e não se sente interpelado, e é essa sensação de ser interpelado que uma marca compra ao comprar conteúdo de criador.

Legende sempre, por acessibilidade e para quem vê sem som. Só que nunca deixe uma faixa de legendas fazer de cobertura do outro mercado, nem deixe um cliente acreditar nisso, porque ele vai descobri-lo sozinho mais tarde e parecerá recomendação sua.

O elementoA versão preguiçosaO que custa
A sua roupaA mesma camisa nas duasAs duas versões leem-se como duplicados assim que se veem lado a lado
A piadaTraduzida à letraDeixa de ser piada, e o silêncio previsto para o riso fica lá
O texto no ecrãDeixado na primeira línguaA única coisa que o espectador lê de certeza está na língua errada
O nome do produtoPronunciado igual nas duasSoa estrangeiro num dos dois mercados, o contrário do objetivo
O ritmoA mesma montagem aplicada às duasUma versão vai apressada e a outra tem vazios, porque as frases não medem o mesmo
O cenárioO mesmo plano no mesmo cantoAs duas versões parecem um vídeo reaproveitado, que era o que era

O que dizer quando o cliente pede as duas

Pergunte qual manda. Há quase sempre um mercado principal para uma campanha, e sabê-lo muda o que se otimiza: a versão principal fica com a melhor luz, a melhor energia e o primeiro espaço do dia.

A versão secundária não tem de ser pior. Tem de não ser um pensamento tardio, e a diferença entre as duas coisas está toda no planeamento.

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Perguntas frequentes

Devo cobrar o dobro por duas línguas?

Nem o dobro nem um pequeno suplemento. Orçamente como um segundo vídeo com desconto pelo cenário e pela deslocação partilhados, porque é exatamente isso que é.

Posso só pôr legendas?

Por acessibilidade, sempre. Como forma de cobrir o outro mercado linguístico, não. Um vídeo legendado é compreendido mas não interpela, e o que foi comprado era a interpelação.

Que língua filmar primeiro?

Aquela em que está menos à vontade, enquanto está fresco. Filmar primeiro a versão confiante transforma a segunda numa tradução cansada.

E se só falo uma das duas?

Diga-o com clareza e cobre só o que entrega. Oferecer as duas e subcontratar em silêncio a que não fala é o que estraga uma reputação num mercado deste tamanho.